Descolonizar a escola: caminhos para uma educação anarquista antirracista
Pensar uma pedagogia anarquista antirracista significa reconhecer que a educação não pode ser libertária enquanto reproduzir hierarquias raciais, culturais e epistemológicas. A crítica anarquista à autoridade precisa alcançar tanto a organização da escola quanto a estrutura histórica que definiu quais grupos podem falar, ensinar e produzir conhecimento. Nesse sentido, uma pedagogia anarquista antirracista não se limita a questionar a autoridade do professor ou do Estado: ela enfrenta também o colonialismo e a exclusão de saberes negros e indígenas.
A experiência anarquista do ativista norte-americano Anshati Alston (1954 - ) no Partido dos Panteras Negras levou-o justamente a questionar estruturas em que lideranças concentravam nos membros ordinários: segundo ele, ninguém é suficientemente importante para pensar pelo outro, e as próprias pessoas devem participar da construção das decisões coletivas. Assim, uma pedagogia antirracista também precisa compreender que as relações de autoridade não operam isoladamente. O racismo, nessa leitura, não é simplesmente uma atitude individual de intolerância, mas parte de uma estrutura de supremacia branca articulada a outras formas de exploração e subordinação. Para a educação, isso significa que não basta introduzir práticas participativas se estudantes negros, indígenas, mulheres ou outros grupos historicamente marginalizados continuam encontrando seus conhecimentos, suas experiências e suas referências culturais subordinados a um currículo estruturado por uma perspectiva dominante.
E a proposta para uma discussão antirracista nas escolas precisa ser também uma pedagogia de descolonização do conhecimento. Em Afrobarroco, livro lançado este ano em versão digital e distribuído para escolas e núcleos educativos, Mateus Aleluia afirma que a descolonização cultural da mentalidade brasileira depende da educação e exige uma reestruturação de nossa forma de educar. Uma pedagogia anarquista deve, assim, questionar não somente quem ensina, mas também o que é reconhecido como conhecimento. Se a escola opera predominantemente com referências europeias e apresenta África, povos indígenas e comunidades negras apenas como objetos secundários de estudo, a descentralização das relações pedagógicas permanece incompleta. Incorporar histórias africanas, afro-brasileiras e indígenas na educação, é entender que esse movimento é parte de uma reparação diante de uma formação que não reconheceu adequadamente a pluralidade étnica brasileira.
O antiautoritarismo torna-se incompleto quando ignora o racismo. E o antirracismo torna-se limitado quando não questiona as estruturas que concentram autoridade e impedem a autodeterminação. Descolonizar o conhecimento e democratizar radicalmente as relações educativas são partes de um projeto anarquista de liberdade.
Sugestões de leitura:
ALELUIA, Mateus. O Afrobarroco. Organização e revisão de Tenille Bezerra. Cachoeira, BA: Sanzala Cultural, 2026.
ALSTON, Ashanti. Anarquismo negro. Tradução de Mariana Santos. [S. l.]: Biblioteca Anarquista, 2003. Transcrição de discurso realizado no Hunter College, Nova York, em 24 out. 2003. Publicado originalmente em Perspectivas sobre a teoria anarquista, v. 8, n. 1, 2004.
WILLIAMS, Dana M. Faccionalização radical dos Panteras Negras e o desenvolvimento do Anarquismo Negro. Tradução de Cello Latini Pfeil, Kaio Braúna e Wallace de Moraes. Revista Estudos Libertários, Rio de Janeiro: UFRJ, v. 3, n. 8, p. 9-38, 1. sem. 2021. ISSN 2675-0619