Duas gerações de resistência

Por Fantasma

A fumaça do gás lacrimogêneo ainda ardia na garganta quando a porta do esconderijo se fechou. Duda, aos seus dezoito anos, jogou a mochila surrada no chão. Seus olhos queimavam de raiva e medo. O fascismo submetera o país a um silêncio covarde, mas ela se recusava a se calar.
— Não podemos recuar, Fantasma! — esbravejou, limpando o suor da testa. — A panfletagem de hoje abriu os olhos do bairro!
Fantasma, aos cinquenta anos, tinha cabelo grisalho cortado rente e as cicatrizes contavam histórias de décadas de resistência. Ele olhou para a garota com uma calma que só os sobreviventes possuem.
— Abrir os olhos é o primeiro passo, garota. Mas a pressa sem estratégia vira prato cheio para os cassetetes do Estado.
Anos de militância no Coletivo Confluência Anarquista haviam ensinado Fantasma a ser invisível, um espectro que articulava a solidariedade nas sombras. Duda, por outro lado, era chama pura, a faísca da nova geração que preferia queimar a se curvar.
— O medo deles é a nossa união — disse Duda.
Fantasma sorriu, vendo na jovem o próprio passado.
— Exato. A anarquia não é o caos, Duda. É o cuidado mútuo quando a barbárie vira lei.
Naquela noite escura, a esperança não era uma ilusão, mas um ato de coragem diário.

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