Por que Argentina e Uruguai tiveram movimentos anarquistas tão fortes?

Quando se fala da história do anarquismo, costuma-se contar uma trajetória que começana Europa. Fala-se de Bakunin, Kropotkin, Malatesta e da Primeira Internacional.Depois, quase como um detalhe, afirma-se que essas ideias chegaram à América Latinapor meio da imigração. Ángel Cappelletti, pesquisador do anarquismo e filósofoargentino, considera essa narrativa insuficiente.

Segundo ele, dizer que o anarquismo foi "importado" da Europa é apenas reconhecerum fato evidente. As ideias realmente atravessaram o Atlântico. Mas isso explica apenassua origem geográfica, não sua história. Ideias não são mercadorias... São organismosvivos que se transformam quando encontram novas sociedades, novos conflitos e novasculturas. Foi exatamente isso que aconteceu na região do Rio da Prata.

Muito mais do que imigração

É verdade que Argentina e Uruguai receberam milhões de imigrantes europeus entre ofinal do século XIX e o início do século XX. Entre eles estavam trabalhadores italianose espanhóis que conheciam sindicatos, cooperativas, jornais operários e organizaçõeslibertárias. Mas, para Cappelletti, esse fato está longe de explicar por que o anarquismocriou raízes tão profundas justamente nesses países.

Se bastasse a imigração, movimentos semelhantes teriam surgido com a mesmaintensidade em qualquer lugar que recebesse europeus. Não foi isso que aconteceu. Oque explica a força do anarquismo foi o encontro entre essas ideias e uma realidadesocial específica.

Um terreno fértil

Argentina e Uruguai viviam um período de rápida urbanização, crescimento industrial eintensa formação da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, persistiam jornadasexaustivas, salários baixos, desigualdades profundas e forte repressão aos movimentosoperários.

Nesse contexto, o anarquismo oferecia não apenas críticas ao capitalismo ou ao Estado,mas formas concretas de organização coletiva. Mais importante ainda, oferecia umacultura política baseada na autonomia dos trabalhadores. Essa talvez seja uma dascaracterísticas mais marcantes destacadas por Cappelletti. O anarquismo não se limitavaa disputar eleições nem a esperar uma revolução futura. Ele buscava construir, desde já,instituições populares capazes de fortalecer a autonomia da classe trabalhadora.

A experiência singular da FORA

Um dos exemplos que Cappelletti considera mais originais é a Federación Obrera Regional Argentina (FORA). Fundada em 1901, a FORA tornou-se muito mais do que uma federação sindical.

Durante vários anos foi a principal organização operária argentina e desenvolveu formas de organização que, segundo Cappelletti, não possuíam equivalente na Europa. A própria Confederación Nacional del Trabajo (CNT) espanhola considerava a FORA excessivamente radical em alguns aspectos.

A FORA recusava a burocratização sindical, defendia a autonomia das organizações de trabalhadores e compreendia o sindicato não apenas como instrumento de reivindicação econômica, mas como embrião de uma nova forma de organização social. Essa é uma das razões pelas quais Cappelletti insiste que o anarquismo latino-americano não deve ser visto como mera reprodução das experiências europeias. Ele produziu soluções próprias.

O caso uruguaio

No Uruguai, aconteceu uma experiência semelhante com a criação da Federación Obrera Regional Uruguaya (FORU). Inspirada em parte pela experiência argentina, a FORU rapidamente tornou-se a principal organização operária do país. Segundo dados citados por Cappelletti e outros historiadores, em 1911 ela reunia cerca de 90 mil trabalhadores, algo próximo de três quartos da força de trabalho industrial uruguaia da época. Esse dado impressiona porque mostra que o anarquismo não era um movimento marginal. Em determinados momentos, fazia parte da experiência cotidiana de grande parcela da classe trabalhadora.

Uma cultura libertária

Outro aspecto frequentemente esquecido é que o anarquismo do Rio da Prata não existia apenas dentro dos sindicatos. Ele construía uma verdadeira cultura libertária: jornais operários circulavam diariamente, bibliotecas populares organizavam empréstimos de livros, grupos de teatro apresentavam peças para trabalhadores, escolas libertárias experimentavam novas formas de educação, conferências públicas discutiam ciência, literatura, filosofia e política…

Como observa Cappelletti, entre aproximadamente 1890 e 1920, uma parcela significativa da produção literária argentina e uruguaia manteve algum tipo de diálogo com o universo libertário. O anarquismo influenciava escritores, poetas, jornalistas e intelectuais, embora seus intelectuais permanecessem profundamente ligados aos movimentos populares, e não às universidades ou ao Estado.

Um anarquismo latino-americano

A contribuição de Ángel Cappelletti na sua historiografia do anarquismo nos proporciona justamente esta mudança de perspectiva; ao invés de perguntar "como o anarquismo europeu chegou à América Latina?", ele propõe outra questão: "como a América Latina transformou o anarquismo?" Sua resposta é clara.

A região do Rio da Prata não apenas recebeu ideias vindas da Europa. Ela produziu experiências originais de organização sindical, cultura popular, imprensa operária e educação libertária que passaram a integrar a própria história do anarquismo mundial. Por isso, estudar a FORA, a FORU e tantas outras experiências não significa apenas conhecer um capítulo da história argentina ou uruguaia. Significa compreender que a América Latina também foi protagonista na construção do pensamento e da práticalibertária.

Essa mudança de perspectiva talvez seja uma das maiores contribuições da obra de Ángel Cappelletti: ela nos convida a abandonar a ideia de uma periferia que apenas recebe influências e a reconhecer o continente como um espaço de criação política, cultural e organizativa, capaz de produzir experiências próprias que enriqueceram a tradição anarquista internacional.

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